O mercado de trabalho e a pandemia

Recebo frequentes convites para participar de reuniões virtuais com o propósito de prever como serão as relações de trabalho em 2021. Prever é profetizar.
Profeta, na acepção da palavra, é “alguém por meio de quem se dá a conhecer a vontade e o propósito divinos” (Luc 1:70; At 3:18-21).
O Velho Testamento foi revelado a profetas como Moisés, Samuel, Zacarias, Jeremias, Ezequiel. Para os islamitas, Maomé foi o profeta a quem Alá, o único Deus, incumbiu de escrever e difundir o Corão.
A pandemia do coronavírus não foi profetizada. Não tivemos um Moisés a quem Jeová incumbisse de nos alertar sobre a praga destinada a ficar.
É impossível dimensionar o tamanho do prejuízo.
Sabemos apenas que o número de mortos e de infectados supera as piores estimativas e que a quantidade de empresas quebradas, de empresários falidos, de desempregados, de desocupados e desalentados tende a aumentar.
O mundo ficou mais pobre e o Brasil retrocedeu.
Somos mais de 210 milhões de habitantes de um continente chamado Brasil.
O coronavírus cumpriu duplo papel: revelar a verdade oculta por falsas estatísticas e aprofundar crise cujos primeiros sinais foram emitidos nos anos 1980.
Como ficará o mercado de trabalho após a pandemia?
A pergunta exige respostas objetivas e convincentes.
Antes que se instalasse já se sabia que a carência de emprego é um dos piores flagelos da humanidade
Há mais de 20 anos os dados da Organização Internacional do Trabalho já o denunciavam. Farta literatura europeia examinava o tema em tom pessimista.
Não se tratava apenas de problemas de desindustrialização ou de pobreza.
Países ricos acusavam elevadas taxas de desemprego atribuídas à globalização, a informatização, à robotização e, mais recentemente, à inteligência artificial.
Como poderemos reencontrar o caminho do desenvolvimento?
Como gerar milhões de empregos para jovens, adultos e idosos, brancos, negros e pardos, qualificados ou não qualificados?
O primeiro obstáculo é a insegurança jurídica. Não há como ignorar.
O temor ao passivo oculto aterroriza o empregador brasileiro. No terreno dos industrializados não estamos entre os exportadores porque os custos finais nos impedem o acesso ao mercado externo.
Ouço falar de avalanche de reclamações ajuizadas por empregados que se sentem lesados por medidas provisórias destinadas a preservar empregos e empresas.
Se a ameaça não for de pronto afastada, o projeto de recuperação econômica nascerá morto ou aleijado.
Gerar empregos não é mero ato de vontade.
Exige planejamento correto e elevados investimentos.
Alguém já se perguntou quanto custa criar e sustentar postos de trabalho?
Quem desejar saber indague ao pequeno empresário.
.O esforço de reconstrução econômica exigirá esforços a que não estamos habituados.
Serão indispensáveis espírito de solidariedade, disposição para o sacrifício, boa-fé nos contratos, investir e enfrentar os pesados riscos do negócio.
O economista americano James Tobin, ganhador do Prêmio Nobel de Economia, escreveu: “Nossa população aspira a um padrão de vida cada vez melhor, geração após geração. Para satisfazermos estas aspirações precisamos de contínuo crescimento da produtividade e, em consequência, precisamos de mais poupança, mais investimentos, mais pesquisas e desenvolvimento, mais tecnologia nova e melhor sistema educacional”.
Em síntese, de tudo que nunca tivemos.
Os profetas da Bíblia não eram economistas.
Não dispunham de consultores, bibliotecas, estatísticas.
Revelavam o futuro como porta-vozes de Deus.
Aquilo que profetizaram continua a ser lido e respeitado, independente dos resultados colhidos ao longo da História da humanidade.
No mundo contemporâneo não temos profetas.
Foram substituídos por sociólogos, economistas, cientistas políticos, institutos de pesquisas, calculadoras, computadores e jornalistas. Ainda assim, profetizar na política e na economia quase sempre traz maus resultados.
O ano de 2020 já é perdido. Não se trata de profecia, mas da constatação da realidade.
O Governo deve cuidar para que a crise não ponha a perder a próxima década.
Com 15 milhões de desempregados, outros tantos desocupados, 65 milhões de dependentes do auxílio emergencial, a indústria, o comércio e o turismo quase paralisados, como serão as festas do Natal e de passagem de ano?
Haverá dinheiro para férias, pagamento do décimo terceiro, presentes, reuniões familiares, almoços e reuniões de confraternização?
Algumas boas experiências, porém, ficarão. Reaprendemos como é agradável ficar com a família e ter tempo para ler. Desenvolvemos o sentido da solidariedade.
Adquirimos o hábito da compra pela internet, sem idas e vindas aos shoppings ou supermercado.
Dominamos a técnica das reuniões por vídeoconferência.
O trabalho à distância mostrou-se produtivo. Veio para ficar.
Economiza espaço, dinheiro, estimula a criatividade, valoriza a independência, cria oportunidades, oferece conforto e permite minutos de laser.
Como se diz na França: À quelque chose, malheur est bom (há males que vêm por bem).

Advogado.
Foi Ministro do Trabalho e presidente do Tribunal Superior do Trabalho.
Autor de:
A Falsa República e 30 Anos de Crise 1988-2018.